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53,4 km de emoção

Andarilha largando no Desafrio 2010

Desafio e superação podem ter vários significados. Depende do ponto de vista. Correr 80 km pode ser menos significativo para um ultramaratonista do que dar o primeiro passo para uma pessoa com dificuldades de andar. Para cada pessoa, a conquista tem um valor único, muitas vezes incompreensível para quem vê de fora. Só sentindo, vivendo cada segundo, para saber o que se passa na cabeça e no coração de quem conseguiu ir além do que um dia imaginou.

Desafio a gente precisa vencer diariamente em todos os setores da vida, mas um ocupava meus pensamentos há cerca de um ano e direcionava os treinos há seis meses: correr o Desafrio, em Urubici, sozinha. Querer vencer um percurso de 52 km em montanhas, com elevação de cerca de 900 metros parecia muita ousadia para quem começou a correr há menos de dois anos e nem sabia o que era fazer uma maratona.

Ainda limpinha

Por isso mesmo, fiquei com medo do que vinha pela frente e treinei, treinei e treinei ao lado do meu super-parceiro, o Diogo. Fiquei muito triste quando ele se machucou e desistiu da prova. Além disso, fiz longões solitários de 30 e 32 km sem a companhia estimulante dele. Lá pelo final dos treinos, o tornozelo direito começou a incomodar e trouxe dúvidas se eu realmente iria conseguir fazer a prova.

Chegou a semana tão esperada e, quando me dei conta, estava na largada. Lá estavam o Diogo, pronto para fazer o

Muito feliz

percurso de bike, meus pais e minha irmã, torcendo por mim. Ao meu lado, o Hélio, o Rafael e a Rosary, inscritos para fazer solo, o William, dupla do Anastácio, e a Fabi, que dividiu o percurso com Tiago.
Largamos às 7h35 e o coração parecia saltar pela boca de tanta emoção. Corri ao lado da Rosary por uns 8 km até que ela começou a passar mal, com problemas “digestivos”, e ficou para trás. Depois de uns 10 km de estrada tivemos que atravessar um riozinho a pé porque a pinguela tinha caído. Passei rápido e gostei da água gelada que “anestesiou” o tornozelo. Depois do “canionismo”, começou a patinação na trilha de lama. Foram uns 2 km andando muito devagar para não escorregar nas subidas. O Diogo ficou para trás e me distraí conversando com uns corredores e imaginando o perrengue que meu parceiro ciclista estava passando com a bike nas costas e sapatilhas nos pés.

Emoção na chegada

Emoção na chegada

Depois da trilha atravessamos algumas propriedades rurais e chegou a parte mais nojenta, onde a única opção era pisar em uma poça de esterco (de porco, eca!) que ia até a canela. Pisei sem olhar para baixo e saí correndo igual a uma louca, pulando dentro das poças d’água.

Lá pelo quilômetro 17 cheguei à cachoeira Véu de Noiva. Entrei, me afundei até a cintura e saí com as pernas anestesiadas e um pouco menos fedorentas. O Diogo voou e me alcançou logo depois. Vi o pessoal todo no posto de abastecimento e agora era enfrentar cerca de 10 km de asfalto até o topo do Morro da Igreja.

Corri nos trechos planos, nas descidas e no comecinho das subidas sempre que dava. Quando subia, o jeito era caminhar, mas consegui ir tranquila, com passos largos, num ritmo melhor do que eu esperava. Começou a gelar, as mãos incharam e coloquei luvas. Encontrei o Rafael descendo, o Hélio e o Tiago.

Tomei cuidado para não ficar sem combustível e coloquei alguma coisa para dentro de hora em hora. Com 3h44 de prova e mais ou menos 27km, cheguei ao topo e não acreditei que tinha conseguido. Fiquei emocionada. Tomei alguma coisa e desci. Estava muito feliz.

O melhor parceiro do mundo

Na descida o tornozelo atrapalhou, mas eu já esperava por isso. Não consegui soltar o freio de mão porque ele doía quando eu ia muito rápido. Então fui administrando, correndo sem forçar, me alimentando e conversando com o Diogo. Encontrei o William subindo, mesmo com a panturrilha machucada, e a Rosary, que chegou com garra ao topo apesar de estar mal.

Os quilômetros foram passando e, depois do 32, tudo era novidade para meu corpo, porque essa era a maior distância que eu já tinha corrido na vida. Fui babando com as paisagens e, quando dei conta, tinha completado uma maratona: 42 km! Ainda faltavam mais de 10km para terminar, mas, surpreendentemente, eu me sentia muito bem. Estava animada, mais inteira do que esperava e conseguia correr. Não estava cansada. Percebi que a força para vencer grande parte das dificuldades estava na cabeça e eu havia me preparado bem nesse sentido.

Quando as descidas terminaram eu sabia que a pior parte estava por vir. São cerca de 10 km planos em estrada de terra e depois dentro da cidade que não acabam nunca. Dá muita vontade de caminhar, mas coloquei na cabeça que ia fazer aquilo correndo. Eu “me mandava correr” e o Diogo levantava minha moral o tempo todo. Corri numa média de 7 min/km, mas praticamente não andei. Quando faltavam uns 5 km para a chegada, vi meu pai na beira da estrada dando força. Seguindo a orientação do Diogo, transformei a emoção em energia e consegui correr a 6min/km àquela altura do campeonato!

Entrei na cidade e comecei a desanimar porque a droga do portal de chegada não aparecia! Já tinha fechado 52 km e nada de ver o maldito! Nessa hora, sem o Diogo ao lado, eu certamente teria caminhado. Apesar de estar perto do final, fazer 1 km era um sacrifício imenso.

Eles me esperavam na chegada

Quando a miopia permitiu que eu visse o portal, pedi para o Diogo ir lá me esperar. Ouvi minha família e os Andarilhos gritando meu nome e terminei a prova desabando de emoção. Eu consegui!

Nem lembro direito o que aconteceu nessa hora. Eu estava “anestesiada”, não acreditava que tinha terminado. Parecia um sonho. Só lembro de flashes na cara e abraços bem apertados a ponto de não conseguir respirar.

Na hora da emoção, nem lembro se agradeci devidamente todos que me levaram para frente nesse Desafrio! Primeiro, não tenho palavras para agradecer o Diogo. Se não fosse ele, os treinos não seriam os mesmos e, certamente, os 53,4 km não teriam durado 6h54. A prova seria muito mais demorada e penosa. Obrigada, também, por ter me aguentado falando só disso durante mais de 20 dias, por me deixar sempre  confiante e por ouvir todas as minhas lamentações… Não sei se teria conseguido fazer tudo isso sem o meu parceiro-marido-amigo-treinador!

Aos meus pais e minha irmã, obrigada de coração pelo apoio, por me ouvirem nas horas de ansiedade e por estarem lá,

Bônus: 3º lugar na categoria

torcendo por mim e vivendo essa alegria comigo. Saber que vocês estavam esperando lá no finalzinho me motivava ainda mais a cada passo!

Aos Andarilhos, por me deixarem tranquila, pelas orientações técnicas, pela torcida e pela animação, muito obrigada!

Não posso deixar de agradecer a Deus por ter me permitido viver esse dia tão especial e completar a prova com saúde.

Voltando àquela historinha da superação, para quem vê de fora pode parecer bobagem, mas só quem passa por isso sabe o que eu senti, aprendi e o que essa conquista significou na minha vida.

Obs.: O bônus de tudo isso foi que eu subi em um pódio pela primeira vez. Fiquei em 3º lugar na categoria e em 11ª no geral feminino, entre 25 atletas. Mais uma vez, a Andarilha arrasou: o Rafael conquistou o 3º lugar e a Fabi e o Tiago ficaram em 2º. O William chegou ao topo mesmo com dor na panturrilha e o Anastácio desabou morro abaixo. O Hélio, nosso anfitrião, mais uma vez fez uma super prova.



1 comentário para53,4 km de emoção

  • Parabéns pela prova e por esse texto, ambos nota 10.
    Ultimamente tenho entendido porque é que fazemos essas corridas todas: é por essa festa, por essa emoção da chegada. Porque contamina tudo e todos que estão envolvidos.

    Outra coisa: curtiu a preparação ? A prova é O DIA, mas a preparação dura meses. Tem que gostar muito, senão vai ser só uma vez pra saber como é. E pelo que vi você gostou. Tá perdida, agora só vai piorar ;-)

    Parabéns de novo.
    Rafael

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