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Duatlo em dia de mar calmo e (muito) sol

Precisamos fazer fotos diferentes...

Aos poucos, o mar parece estar fazendo as pazes comigo. Ou eu com ele. Sábado voltamos à praia da Daniela e, para minha alegria, a água estava lisinha, lisinha. Com a experiência “encrespada” no currículo, enfrentar aquela piscina natural foi bem mais fácil. E até gostoso!

Nadamos ao longo da praia por uns 500m e depois fizemos uma diagonal até outra prainha. Voltamos nessa linha diagonal, mais aberta, fazendo uns 600m sem parar. No total, deu uns 1.500m. Para começar no mar, está bom.

Pela primeira vez consegui ficar menos agoniada, respirar como faço na piscina e parar de ficar pensando se onde estou dá pé ou não. Consegui curtir, foi isso que me deixou mais feliz.

Para fechar o duatlo, pegamos o carro e fomos até a ponta de Jurerê Internacional para correr. A essa altura o sol estava pelando.

Como as pernas ficam pesadas logo depois de nadar! Corri pela estrada-montanha-russa de Canajurê até Canasvieiras e voltei pelo mesmo caminho, fechando 14km em 5min55seg/km.  Desde a lesão da canela eu nunca mais tinha feito subidas e descidas decentes, então o treino do sábado foi de começos e recomeços.

Vale a pena tentar outra vez

Antes de tostar no asfalto

No final de novembro fui com o Diogo para a praia da Daniela ver se começava a nadar no mar de uma vez. Pra quem nada na piscina há dois anos e meio, é até vergonhoso não ser capaz de fazer a mesma coisa na água salgada.

Mas a natureza não colaborou e o mar estava muito, muito encrespado. Tentei dar umas braçadas e achei impossível nadar no meio daquele monte de míni-ondinhas geladas. Fiquei nervosa, com raiva, quis ir correr logo e esquecer a praia e pensei que nunca iria conseguir.

Mas tentei outra vez, afinal já estava lá, molhada e gelada. Depois tentei outra, mais outra, sempre nadando uns 60 metros numa linha paralela à praia. Ia caminhando contra as ondas e voltava nadando, com elas meio a favor, meio de lado. E as sete cabeças do monstro foram virando seis, cinco, quatro…

Quando acostumei um pouco mais com o incômodo, o Diogo me desafiou a nadar de uma ponta da praia, que é mais ou menos em forma de L, até outro lado. Coisa de 200 metros, no máximo. Ele disse que dava pé o caminho todo e eu acreditei, mas não dava. Fiz tudo meio errado, respirei a cada duas braçadas e fui muito devagar, mas o que importa é que eu cheguei!

Depois ainda corri 14km até Jurerê Internacional no asfalto que, com o calor, virou o mármore do inferno. Fiz média de 5min37seg/km e cheguei muito mal, meio desidratada, mas feliz por ter tentado outra vez.

Duatlo da República

Depois da corrida

Nosso treino das terças e quintas normais é natação de manhã e corrida e musculação à noite. Hoje, feriado da Proclamação da República, decidimos fazer um duatlo pela manhã. A musculação ficou de fora porque a academia estava fechada.

Como amanheceu chovendo, achei que seria melhor enfrentar logo a corrida “aquática” e fria e deixar a piscina quentinha para depois. Fomos de carro até a Astel, alongamos e saímos. Fizemos 8 km: os quatro primeiros numa média light e a volta em ritmo progressivo com o último quilômetro a 5min05seg. Para nossa sorte, praticamente não pegamos chuva durante o treino.

Missão cumprida

Demos uma reabastecida no estômago, trocamos de roupa e caímos na piscina. Aí é que eu senti a diferença entre nadar descansada e depois de outro treino. Demorei para conseguir entrar no ritmo. As pernas estavam mais pesadas que o normal e até os braços pareciam mais cansadinhos. Mas cumpri a missão, fiz 2.000m. Os últimos 750m foram sem parar, a 16min15seg, pelos cálculos do Diogo. Ele fez os mesmos 750m em 10min40seg. Foi bom, mas preciso começar a treinar no mar.

Evolução na elevação

Impossível enjoar disso...

No último sábado corri 15km na Beira-Mar e domingo foi dia de pedalar. Saímos perto das 10h, com o sol já forte e sem  nuvens no céu, para o mesmo percurso sobe-e-desce do dia 12 de outubro: Barra da Lagoa ida e volta.

Dessa vez forcei mais nas subidas. Começava num ritmo médio e, quando via que ia dar conta do morro, dava uma apertada até queimar as coxas. Deu pra forçar até no finalzinho do morro da Barra da Lagoa, na volta, que é mais cruel. Estava bem calor, mas o dia lindo com aquela paisagem maravilhosa da Lagoa fazia o esforço valer a pena.

Depois disso minhas pernas não prestaram muito, mas continuei castigando elas sempre que dava. Já no final, subindo o morro da Lagoa, o Diogo viu que estava com o pneu furado. Estávamos sem câmara reserva, mas duas paradas para encher o pneu foram suficientes para chegar em casa com mais 30km para fechar a conta semanal.

A má notícia é que descobri hoje que a Sul Brasilis foi transferida de novembro para fevereiro. Mas vou continuar os treinos como estão e arranjar alguma prova para aplicar tudo isso…

Montanha-russa no Dia das Crianças

A foto é de agosto, mas é do morro da Lagoa

Morro da Lagoa, morro da praia Mole, morro da Barra da Lagoa e tudo de novo na volta. Esse foi o trajeto que escolhemos para pedalar no Dia das Crianças. Quase uma montanha-russa, mas foi de propósito. Vamos participar da corrida de aventura Sul Brasilis em Jaraguá do Sul no dia 6 de novembro e (entre outras coisas) precisamos retomar os treinos de subida em duas rodas.

Posso contar nos dedos quantas vezes encarei, de bike, algum morro mais alto neste ano. Que bom que a aproximação de uma prova dessas faz a gente se mexer. Minha última Sul Brasilis foi em Floripa em dezembro de 2009. A sede de voltar para o mato está grande…

O morro da Lagoa eu encaro bem na ida e na volta. Desde que “conquistei” o topo pedalando há uns três anos, ele nunca mais me venceu. O da Mole foi o mais tranquilo do trajeto e o da Barra da Lagoa, na ida, também não assusta tanto. Chegamos à Barra, admiramos a praia e voltamos para encarar a parte mais complicada do percurso.

O morro da Barra da Lagoa no sentido praia–centro começa leve e vai piorando. Também não tem espaço para descanso, como o da Lagoa. Acho que subi o dito cujo de bike umas duas vezes, e já faz tempo. Depois de tanto tempo pedalando só no plano, pensei que teria que empurrar a bike, mas segui o conselho do Diogo de ir beeeem devagar, quase parando, e cheguei ao topo sem muito sofrimento. O segredo é não ter pressa.

Depois pegamos os outros dois morros e voltamos para casa, somando cerca de 28km e seis subidas legais para quem está retornando às alturas.

30 segundos

Apenas uma semana antes da prova, descobri que estava inscrito na competição de natação do SESI dos 50m livre! Fazia mais de 16 anos que eu não treinava largada no trampolim, então precisei relembrar. Foi um tal de perder os óculos de natação até que um colega, o Eduardo, me deu o toque de puxar a touca por cima dos óculos. Mas como sempre existem imprevistos, pelo menos para mim, naquele dia a piscina da Astel estava totalmente leitosa; era impossível enxergar mais de 1 metro à frente e não tinha como fazer o treino dos 50m pois eu não conseguia fazer a virada. Então resolvi fazer apenas os 25m e prever meu tempo para os 50. Após a Cinthia ter marcado 12s, cheguei à conclusão de que teria chance de fazer em torno de 30s.

Agora era só esperar o dia da prova, e ele chegou! Pensei que não poderia ficar ansioso pois, diferente da corrida, em que a ansiedade é revertida em melhor desempenho, pelo menos para mim, na natação isso acabava me deixando mais lento pois me fazia respirar mais vezes que o necessário.

Ao chegar ao Lira, fiquei olhando para todos os atletas imaginando qual seria o tempo de cada um. Na hora do aquecimento, acho que fui o segundo a entrar na piscina. Segui à risca as instruções do Junior (meu treinador), que consistia em fazer séries de 25m com intervalos fortes na saída, no meio e na chegada, sempre descansando entre as séries.

Na hora em que começaram as disputas, pedi para a Cinthia, sem dúvida minha maior torcedora e incentivadora, a marcar os tempos dos outros atletas para eu ter noção se teria alguma chance. Até a minha bateria, o melhor tempo tinha sido 33s.

Chegou a minha bateria. Nessa altura eu já tinha ganhado no quesito torcida, pois além da minha esposa eu tinha minha cunhada, que foi torcedora e cinegrafista. O resto passou muito rápido.  Só lembro do árbitro: “Subam… Em seus lugares… Piiiiiiiiiii”! Trinta segundos depois eu tinha chegado, 1 segundo à frente do segundo colocado.

Resumo de tudo: após a minha primeira prova de natação traumatizante, a Travessia da Ilha do Campeche, com o mar em uma baita ressaca, a segunda foi bem mais produtiva: 1º colocado!

Entrando no ritmo

Quase todos uniformizadosA Andarilha dominou as 10 milhas da Inplac no último domingo (24/7). Éramos 11 integrantes, quase todos devidamente uniformizados com a linda camiseta criada pelo Anastácio. Às 8 horas, o William, o Diogo e eu pegamos carona com o Hélio. Passamos na casa do Anastácio e tocamos para a Inplac, em Biguaçu. Tínhamos que pegar os kits e às 9h15 os ônibus levariam os atletas até a largada, em Antônio Carlos. Na fila dos kits encontramos o restante da turma: Queiroz, Taty, Jacó, Fabi, Varela e Fernanda. Logo vimos o primeiro ônibus, entulhado de gente, mas o Capitão foi investigar as coisas e conseguimos entrar em uma van que saiu em seguida.

Por conta da Festa do Colono, que era realizada no mesmo dia no centro de Antônio Carlos, o local de largada foi transferido para uma estrada rural. Descarregaram a gente lá, mas a estrutura da prova se resumia a dois banheiros químicos. Não tinha nada que sinalizasse onde começava o percurso.

A largada estava prevista para as 10 horas, mas… Pelo que deu para perceber, eram apenas um ônibus e duas vans para transportar mais de 300 atletas. Teve motorista que se perdeu, teve caminhão dos bombeiros atolado na estrada e teve muita gente cansada de esperar para correr.

Comecei a ficar com fome por causa da demora. A demora me surpreendeu porque todo mundo sempre falou bem dessa prova: cerca de 16km  com percurso bacana e inscrição barata…

Quando chegou o último carregamento de atletas, vimos o povo da frente sair correndo e fomos atrás. Já eram 11 horas, mas correr acalma e logo a preocupação com o ritmo tomou conta dos meus pensamentos. O Diogo me acompanhou do início ao fim.

No começo doía para respirar (estou com um músculo do peito machucado por causa da natação). Os primeiros 4 km eram por estrada de chão com alguns morros não muito íngremes, mas pesadinhos para quem não treina subidas há um bom tempo.

Fiz o primeiro quilômetro a cerca de 5min55seg/km e depois fui apertando o ritmo. Já que subir estava difícil, o jeito era tentar recuperar soltando o freio de mão nas descidas. E assim foram os 4 km iniciais. A paisagem era bonita e o terreno estava bom para correr.

A partir do 5º quilômetro era acostamento de asfalto. As subidas eram mais suaves, a dor no peito diminuiu e ficou mais fácil manter o ritmo. A essa altura eu estava a uma média de 5min30seg/km e fiquei em dúvida se conseguiria manter o pace até o final. Paguei para ver, mesmo que tivesse que terminar trotando.

Lá pelo quilômetro 11 o sol apareceu, deu uma esquentada e apertou a sede, mas no quilômetro seguinte já tinha água. Bebi e tomei banho de copinho para refrescar e fui até o fim. Fechamos os 15,5 km em 1h26min50seg, melhor do que eu esperava. Na chegada já estavam Hélio, William, Fabi, Varela, Taty e Jacó e colados em nós chegaram o Anastácio e a Fernanda. Logo em seguida o Queiroz completou o time.

Os Andarilhos paparam alguns troféus nas categorias: Taty em 1ª, Jacó em 5º, Fabi em 5ª e eu em 2ª (pelo que vi, só três atletas correram na minha categoria, mas tá valendo, hehe).

Um ano na água

Já tem um ano que o Diogo e eu começamos a madrugar nas terças e quintas para fazer aulas de natação. Comecei “motivada” pela lesão na tíbia, que me impediu de correr por um bom tempo, e ganhei uma nova atividade.

Entrei na piscina sem saber nadar e hoje fico super feliz com a evolução. Esta semana bati meu “recorde” nos 50m (52seg) e nos 100m (1min53seg). Sei que é bem fraquinho ainda (só pra ter uma ideia, meu ritmo mais forte é o mais light do Diogo), mas pra mim já é motivo para comemorar.

Nadar também tem ajudado nas corridas. Depois que comecei a dar as braçadas, sinto que o pulmão sofre menos nos treinos em terra. Meu VO2 também aumentou um pouquinho, agora é 52,18.

Apesar de a preguiça às vezes bater às 5h40 da manhã, ela nunca foi motivo para faltar uma aula sequer. Tem valido muito a pena, recomendo!

De volta, mas com moderação

A ponte Hercílio Luz foi cenário da prova inteira

Dezenove de junho de 2011. Exatamente um ano depois do Desafrio 2010, a melhor e maior prova que já fiz na vida (com direito a bike-pacing do maridão, família e chororô na chegada), lá estava eu em uma largada outra vez. Mas em uma situação bem diferente e certamente longe da que eu sonhei lá em Urubici no ano passado: Meia Maratona de Floripa, categoria 10km.

A edição 2011 da prova que me deixou sem correr por cerca de 4 meses e sem competir por um ano aconteceu no dia anterior, mas desta vez fiquei fora, infelizmente. De qualquer forma, retornar às competições me fez super bem e teve gostinho de recomeço – um recomeço sem lesões, se Deus quiser.

Largamos por volta das 7h30 na nova Beira Mar do Estreito. Eu e o Diogo para correr 10km. O Anastácio, o Adriano e o Maycon (que conhecemos pessoalmente na ocasião) para correr 21km. No meio do mar de gente, levamos mais de 2 minutos para chegar ao portal de largada. Sorte que tinha chip para marcar o tempo líquido.

Mas de que adiantou atravessar o portal se a rua estava abarrotada de gente correndo mais devagar do que eu queria ir? Peguei o vácuo do Diogo e do Adriano que iam costurando e se esquivando no meio da multidão e os acompanhei até completar pouco mais de 1km. Era preciso correr nos canteiros para desviar do povaréu do asfalto, não tinha jeito. O segundo quilômetro foi pior porque a rua afunilou e até a descida de um morrinho foi forçadamente lenta. Um saco quebrar o ritmo o tempo todo: dispara para passar um grupo, reduz porque na frente deles tem mais gente… Claro que era lindo ver a Beira Mar inteira coberta de corredores, mas não foi nada prático para quem estava lá no meio. Eu já estava querendo distribuir cotoveladas quando chegamos à ponte Pedro Ivo e a coisa começou a melhorar.

Comitiva da Andarilha

Correr mais tranquila, sem desviar tanto e prestando atenção no ritmo só foi possível depois do 5º quilômetro. Passei a semana gripada e o vírus atrapalhou um bocadinho. Correr com o nariz entupido, tossir e, principalmente, sentir os mucos gripais (pra ser mais delicada) escorrendo pela garganta não é nada agradável. Ainda mais quando você precisa cuspir (sorry, mas não teve jeito) e está cercada de gente.

O quilômetro 7 era a “subida” da ponte Colombo Salles. Me senti bem fraca e quando vi que cheguei ao “topo” a 6min20seg/km, achei que tinha quebrado. Mas consegui me recuperar, tomei uma aguinha e toquei em frente. Faltava pouco.

Cheguei em 54min50seg com 10.170km percorridos (acho que costurei demais :-P ), pace médio de 5min23seg/km. Minha meta para a prova era 5min30seg, então já fiquei bem feliz, especialmente por não ter sentido dor nenhuma durante a corrida e estar inteira no final. O Diogo também superou a meta e fechou a prova em 51min29seg, pace de 5min05seg. Esperamos o restante dos colegas da Andarilha chegarem e voltamos para casa felizes. Na próxima prova não vai ter essa história de só 10km…

Trilha do Ouro: mato até dizer chega

Três dias andando no mato com quase nenhum contato com a civilização. Três dias vendo árvores, paisagens e ouvindo passarinhos do amanhecer até o final do dia; sem TV, telefone, internet, notícias do mundo e da família. Sem dar notícias, sem saber onde você vai dormir e sem conhecer as surpresas do caminho. Quarenta e seis quilômetros carregando tudo o que você precisa nas costas (ou resolvendo tudo com o que leva na mochila). Três dias vendo, no máximo, dois ou três rostos diferentes do seu companheiro de aventura. Três dias de privação de conforto e vaidade, de muito calor, barro e medo também. Três dias conhecendo a simplicidade de perto e descobrindo que precisamos de bem menos do que supomos para viver.

Início da Trilha do Ouro (São José do Barreiro)

Essa confusão de sensações eu vivi no final de janeiro, quando fiz com o Diogo a travessia da Trilha do Ouro, dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, que abrange parte de São Paulo e do Rio de Janeiro. O caminho abriga um trecho da antiga Estrada Real, construída por escravos e usada no século XVIII para escoar o ouro de Minas Gerais até o litoral e de lá para Portugal.
Nossa empreitada começou em São José do Barreiro (SP). Chegamos à cidadezinha no final da tarde de 29 de janeiro.       A travessia começa a 27 km do centro, no alto da serra, que só se sobe de carro 4×4 ou com tração traseira. Ou seja, precisávamos de carona até lá e de alguém que levasse nosso carro até o final da travessia, em Angra dos Reis (RJ), três dias depois.

Pousada na serra da Bocaina

Depois de muita conversa com o pessoal de uma pousada que ficava a 3 km do parque, fomos levados de fusca até lá em cima e pagamos R$ 200 (facada!) ao mecânico da cidade para levar o Uno ao final da trilha. Mais tarde descobriríamos que a “carona” custava R$ 50 e a garagem para o Uno nos arrancaria mais R$ 50 (ligeira, a dona da pousada passou apenas o valor da hospedagem antes de entrarmos e depois cobrou tudo na saída).

Na subida, já anoitecendo, o motorista aconselhou que cuidássemos com as cobras durante a travessia e contou que já foi picado por uma jararaca. De repente, uma cascavel atravessou a estrada e meu medo deu as boas vindas.

A cascavel (única vista em toda a travessia)

Levamos duas horas para chegar à pousada, comemos e fomos dormir. Ao amanhecer, fomos conhecer a região, já que a caminhada começava no dia seguinte. Entramos no parque e checamos com os guardas se a nossa autorização estava ok e perguntamos sobre as (ui!) cobras. Felizmente, não há caso registrado lá de acidente com esses bichos, mas no território deles é bom tomar cuidado. Para evitar encontros desagradáveis, decidi que faria a caminhada com grãos de alho nos bolsos.
Caminhamos até a cachoeira de Santo Izidro e o Diogo aproveitou para tomar banho. Depois voltamos à pousada, totalizando uns 11 km de caminhada – um bom aquecimento para os próximos dias. Naquela noite deu chuva de pedra.
Primeiro dia – 21 km
Tomamos café reforçado, colocamos as mochilas nas costas – a do Diogo com cerca de 20 kg e a minha com uns 15 kg – e iniciamos a caminhada às 8h20. Foram 3 km até a portaria do parque e depois mais 18 km.
O primeiro trecho é praticamente uma estrada plana de terra. É larga e limpa, minimizando o perigo de encontrar uma cobra desavisada. Não há muitas paisagens já que o caminho é quase todo coberto por árvores, mas o lado bom é que tem bastante sombra. As subidas são poucas, mas fazem diferença para quem tem mochila nas costas.
Comíamos algo de tempos em tempos e procurávamos nos manter hidratados e com o camelbak cheio, apesar do peso da água. A cada duas horas, descanso para as costas e as pernas.
Por volta das 14h30, chegamos à pousada Barreirinha. Não era bem uma pousada, mas a casa do Sebastião, que morava lá sozinho e tinha quartos para alugar a “R$ 15 por cabeça”. Forro de palha e sem luz elétrica, mas banho quente, cama limpinha e Coca-cola gelada para vender (não gosto, mas diante das circunstâncias…).

"Pousada" Barreirinha (casa do Sebastião)

O Diogo tratou de fazer logo o carreteiro sob os olhares gulosos de uma cadela saltitante. Comemos, tomamos banho e, de tão cansados, fomos para a cama quando escureceu. Com as pernas travadas, achei que não aguentaria mais dois dias. O Diogo capotou logo e eu custei a dormir preocupada com a chuva e o barulho de algum bicho, talvez morcego, que habitava o forro do quarto.
Segundo dia – 12 km
O galo cantou, tomamos café e pegamos a estrada. Logo percebemos que comer bem e dormir cedo valeu a pena – as pernas estavam quase novas.
Naquele dia me senti como uma vaca. Foi um festival de abrir porteiras, atravessar potreiros sob olhares desconfiados
dos touros e de afundar o pé na lama e em coisas fedidas que compõem esses ambientes. Tinha muita subida cheia de barro e pisoteada pelo gado que não dava outra opção a não ser afundar o pé até o tornozelo (santa botinha de Gore-tex!).

Menino da porteira!

Logo começamos a ver o pé-de-moleque – é como chamam o calçamento construído pelos escravos. Mas de tempos em tempos ele sumia embaixo das estradinhas do gado. A criação de animais, aliás, é responsável por várias áreas de devastação da mata nativa dentro do parque.

Primeiros pés-de-moleque

Quando eu já tinha acabado o repertório de reclamações, chegamos à curva de um riozinho. Em quase todos os rios era preciso tirar o calçado para passar. As “pontes”, quando existiam, não passavam de um tronco com corda para se segurar. Aproveitamos para lavar as botas por fora (se bem que a lama ia até os joelhos), descansar e comer.
Seguindo a caminhada, encontramos um homem sozinho, de mochila. Ladir, guia da trilha, iria acampar na nossa próxima parada, junto ao rio Mambucaba, e tomar banho na Cachoeira dos Veados, a mais linda do trajeto. Ele ficou fotografando e nós seguimos.
Andamos por 30 minutos e chegamos ao grande e agitado rio Mambucaba. A “pousada” onde pretendíamos dormir estava do outro lado e a única forma de acesso era uma espécie de bondinho construída pelo morador da casa e movido a braço. Você subia por uma escada na árvore, entrava e puxava a corda presa por uma roldana.
Quando o Diogo se preparava para atravessar, o guia chegou e disse que a cachoeira estava daquele lado do rio e era melhor conhecê-la antes. Alguns minutos e chegamos a outra ponte improvisada. Eu estava de saco cheio e preferi não me arriscar. O Diogo deixou a mochila e voltou alguns minutos depois com fotos da cachoeira.
Voltamos ao bondinho e atravessamos sem acidentes, exceto pelo meu dedo que foi engolido pela roldana. O lugar era bonito, embaixo das árvores e não parecia que ia chover, então tomei coragem para dormir na barraca. Pagamos R$ 30 para acampar e tomar banho quente.
Barraca montada, jantamos arroz com frango pré-cozido e molho de tomate. Ficou ótimo, mas eu estava com um desarranjo daqueles. Não sei quantas vezes peguei a lanterna para usar o banheiro da casa.
Assim que anoiteceu entramos na barraca. Começou a chover e fiquei com medo de o rio subir, apesar de os moradores da casa e o colega de acampamento terem assegurado que isso nunca aconteceu. Custei a dormir e, sempre que acordava, dava uma checada no nível do rio. Perguntei ao Diogo o que ele achava de ir dormir na casa, que eramais no alto, mas ele nem deu bola. Quando cansei de espiar o rio e a chuva, que deve ter durado algumas horas, dormi como uma pedra. Acordei com o canto galo, feliz em saber que dormiria a próxima noite em uma cama, entre paredes e sob um teto de verdade.
Terceiro dia – 13 km
Agora a preocupação era outra. O homem da casa disse que havia uma ponte caída no trajeto e que, se o nível daquele rio estivesse muito alto, era preciso esperar baixar para atravessar. Eu não considerava ficar mais nem um dia no mato. Obriguei o Diogo a pegar detalhes e ele voltou dizendo que precisava chover muito pra impossibilitar a travessia. Mas a pulga ficou pinicando atrás da orelha.

Esse dia de caminhada foi o mais técnico, mais cansativo (apesar de ter muita descida), mais molhado, mas também o mais bonito. Se estávamos enjoados do barro do dia anterior, era bom respirar fundo porque a meleca era geral. E quando não era isso, as pedras úmidas dos pés-de-moleque eram verdadeiras armadilhas. Mesmo que fosse plano, pisar sobre elas era tombo garantido. Levei três e a mochila me deixou igual a uma tartaruga virada para cima. A solução era ir bem devagar para pisar nas frestas entre as pedras e encontrar alguma firmeza que garantisse cada passo.

Para priorar, a dor na barriga ia aumentando e cada pouco a “natureza” me chamava. Comecei a enfraquecer, ainda mais com o calor e a umidade da floresta.
Riozinhos, cachoeiras, mata fechada e trilha estreita faziam o cenário. Passamos por um pequeno córrego que separava SP e RJ, uma carcaça de boi se desintegrando e um cavalo solto, parado no meio da trilha, que deu trabalho. O Diogo cutucou ele com galhos, mas nada, nenhum passinho para o lado. Quando vimos que não tinha jeito, deu medo de passar perto e levar um coice como resposta aos “carinhos”. Então o Diogo pegou a faca e abriu um espacinho no meio dos cipós do barranco para passarmos com segurança.
O tal rio sem ponte, graças a Deus, estava com cerca de 1 metro de profundidade, mas mesmo assim fui sem mochila pra não cair com a correnteza. O Diogo fez várias viagens para levar tudo.
Depois de uns 12 km de caminhada encontramos uma estrada com um carro estacionado. Ao lado, uma pinguela atravessava o rio. Estávamos nos guiando pelo GPS e por um croqui cuja parte que faltava era exatamente aquela.               Seguindo a rota do GPS, o Diogo achou que tínhamos que atravessar a ponte. Passamos, andamos cerca de 1 km e eu ia piorando. Quando a trilha sumiu no meio do pasto, nossa água acabou e começou a trovejar, fiquei com vontade de chorar, mas voltamos e pedimos informação em uma fazendinha. Descobrimos que a caminhada acabava lá atrás, na estrada ao lado da pinguela. Voltamos e, por volta das 13h30, quando estava em cima da ponte e vi a traseira do Uno no meio das árvores, quase chorei de felicidade. Nosso elo com a civilização estava bem ali.
O “motorista” que contratamos levou a esposa junto e o banco de trás do carro estava escamoteado por causa da bagagem, mas nem nos importamos: entramos no bagageiro e nos esprememos no meio da bagagem enquanto o motorista dirigia até a vila de Mambucaba, em Angra dos Reis. Lá assumimos o controle do Uno e fomos a Paraty ter o descanso mais merecido dos últimos tempos.